O tema da 24ª Bienal de São Paulo, Antropofagia, foi retomado recentemente na exposição „Alles Kannibalen?“ no
me Collectors Room Berlin que encerrou no último 21 de Agosto, contribuindo em apresentar no contexto alemão algo proposto em 1998 pela mega-exposição de Paulo Herkenhoff. Também
Vanessa Ramos-Velasquez, uma brasileira radicada em Berlim, tem avançado, embora em outra direção, ao resgatar interdisciplinarmente (com um hídrido de teoria e performance) a tradição antropofágica brasileira através da linguagem digital, com sua "Digital Anthropophagy" e o "Anthropophagic Re-manifesto for the Digital Age", vencedor do Flusser Award Distinction (Vilém Flusser Theory Award / Transmediale 2011).
O trabalho iniciado em 2009, foi apresentado pela primeira vez na seção "E-Culture Conference" do ISEA2010/RUHR no painel "Cyborgs and Transhumans" e será apresentado em diferentes configurações no próximo ISEA em Istanbul, na Moscow Biennale e na ABCiber de Florianópolis (feita via skype de Berlim), exposições previstas para 2011. O trabalho consiste em um ensaio que "propõe uma nova prática de consumo (ingestão, digestão e excreção)", reelaborando e atualizando as proposições de Oswald de Andrade de 1928, dentro do contexto da era digital, "onde o mundo virtual é a nova fronteira e qualquer um pode vir a ser o colonizador", nos dizeres da artista.
Ademais, o trabalho se transforma de acordo com o contexto de cada apresentação, como por exemplo no Transmediale, onde a data coincidiu com o dia de Yemanjá, e a artista decidiu dedicar-lhe a apresentação recitando o re-manifesto dentro de um barco, oferecendo o re-manifesto ao final da leitura para ser devorado pela platéia na forma de uma óstia, reportando-se assim ao sincretismo religioso afro-brasileiro. (Em Moscou, o barco se transformará no Encouracado Potemkin)
Vanessa Ramos-Velasquez descreve a experiência como "navegar" através das águas turbulentas do canibalismo cultural. Tal associação parace abrir possibilidades futuras de interpretação, uma vez que na época dos descobrimentos e da colonização das Américas, barcos eram reponsáveis pelo contato entre "colonizadores" e "colonizados". Sem esquecer que aproximadamente 85% do conteúdo existente na internet esteja publicado em inglês e do problema da sustentabilidade dos arquivos no mundo virtual, o "Anthropophagic Re-manifesto for the Digital Age" nos mostra no entanto como uma tradição pode ser recuperada e reinserida em novo contexto. Quais desdobramentos essas novas formas de canibalismo cultural irão gerar não sabemos, mas afinal "navegar é preciso; viver não é preciso".