Normalmente Hanna utiliza o vídeo, a performance e a fotografia como linguagens de suas proposições, sendo a performance a que recentemente tem se adaptado melhor aos seus projetos. Nestas, a artista orquestra uma complexa rede de significados e ações, criando situações que buscam instaurar uma espécie de realidade paralela, duplicada e sobreposta – e quase imperceptível àquela existente nos contexto onde se realizam: normalmente ligadas à arte, tais como museus, galerias, coleções e ferias.
Na recente mostra inaugurada em Frankfurt, a artista apresenta um trabalho com aproximadamente vinte performers que, durante a noite de abertura de sua mostra individual, realizavam uma série de ações em situações específicas. A exposição era composta de salas que apresentavam situações diversas qual publico e performers misturavam-se. Muitas vezes a moldura para as performances era clara: um palco no qual jovens realizavam ações que assemelhavam-se à testes para uma fictícia peça teatral, ou então uma mesa na qual um grupo discutia política e as implicações ideológicas desta na situação social atual. Mas além disso, os perfomers infiltravam-se em outras situações normais: um barman que procurava criar brincadeiras com os visitantes (estas pré-programadas), um casal de idosos que passavam-se por colecionadores, um jovem rapaz cuja tarefa era ‘paquerar’ todas as garotas presentes na exposição, e assim por diante. Ao final, a ‘mostra de trabalhos de Hanna’ funcionava como um pretexto e palco para as performances, como um grande cenário.
Em paralelo, uma equipe de fotógrafos e videomekers realizava, em meio ao público, a documentação de todo o processo, atuando também eles como quase-performers. O sentido de vidas permeadas pela crescente voracidade da mídia assim como o da programação constante do cotidiano, ecoavam pela mostra. Em certos momentos o conceito de sociedade de controle (Deleuziano)poderia muito bem dar o tom da situação. O trabalho de Hildebrand buscava explorar a imaterialidade das relações sociais, e ao mesmo tempo que parecia recriar e mesmo estimular estas.
Sem saber, estaríamos fazendo parte, naquela vernissage, de uma experiência comportamental e de uma observação antropológica? Neste sentido a sensação de duplicação da realidade surgia, colocando o visitante em uma estranha posição: no papel de testemunha e observador de uma situação performática não anunciada e cujos limites nunca estavam dados, ou ao menos eram fáceis de serem percebidos; e dentro do trabalho (integrando as performances e o vídeo) onde suas ações incorporavam-se às ações performáticas, borrando talvez os limites entre arte/vida. Deste modo a experiência artística alargava-se, e seu campo reflexivo ampliava-se na direção das esferas mediadoras daquela situação.
Posteriormente à noite de abertura, Hanna manteve uma projeção do vídeo em um espaço adjacente ao da mostra, esta agora apresentava apenas resquícios das ações em espaços cenográficos vazios.
O vídeo, captado naquela noite de vernissage, era exibido em um processo de edição aberto: o material fílmico era alterado a cada semana, num processo onde a artista introduzia novos elementos, alterando e recriando as possíveis documentações e impressões daquele evento passado (a inauguração da mostra). Neste sentido, a complementaridade da performance e o registro do vídeo criavam o campo expandido para que pudéssemos entender a proposição da artista, quando esta intencionava analisar relações sociais a partir de uma proximidade contundente: olhando quase o avesso da arte, onde o espectador, seu comportamento no espaço de arte e o ato de olhar tornam-se o foco do trabalho. Estas observações me fazem recordar de certa tradições cinematográficas ligadas ao cinema verité, que aqui são de certo modo empregados em um jogo de cena, em um ambiente que possui, ainda que aberto, um programa real.
Imperceptíveis a primeira vista, estas performances procuram introduzir ações, comportamentos e dinâmicas que oscilam entre situações reais, e esboços para ficções. O mundo torna-se palco nos trabalhos de Hanna, e queiramos ou não, podemos estar participando de uma de suas proposições. As relações sociais são colocadas à mostra, encenadas ou reais – não importa – estas são parte integrante dos processos de mediação que criam e definem aquilo que lemos e partilhamos enquanto arte.