Certo dia, andando pela cidade de Frankfurt, me deparei com uma estranha construção em madeira. Ao me aproximar notei o cuidado com que tal peça fora produzida, uma vez que esta se assemelhava a um banco, mas cuja composição formal era um tanto peculiar. Intrigado pela peça, procurei saber quem a havia produzido, e foi desta forma que tomei contato com o trabalho de
Martin Wenzel, um artista e designer alemão. Martin Cursou a HFG Offenbach e agora finaliza seu período de estudos na Staedelschule, como guest student sob orientação de Tobias Rehberger.
Martin é um artista-construtor. Seus projetos assumem um status híbrido entre pecas funcionais, escultura e intervenções urbanas. Reaproveitando e transformando materiais (normalmente madeira descartada) Martin emprega técnicas diversas na produção de peças que carregam preocupações tanto estéticas quanto funcionais. Encontrei Martin em seu estúdio-marcenaria no edifíco dos estudios Basis. Ali, conversamos sobre seus interesses pelos campos da arquitetura, escultura, autoconstrução e reaproveitamento de materiais, e também sobre o Brasil, pois Martin esteve como bolsista do DAAD na ESDI, no Rio de Janeiro.
Martin comentou que sua experiência no Brasil foi formidável: seu interesse pela autoconstrução encontrou ali uma infinidade de exemplos e situações que o influenciaram profundamente. Discutimos sobre as diferenças entre utilizar a autoconstrução como meio de expressão plástica e escolha estética em contraste a sua intrínseca potencialidade como solução para a sobrevivência em situações precárias e de urgência.
Neste sentido o artista aponta que as produções materiais que interessam à sua pesquisa configuram-se como arquiteturas e estruturas improvisadas ou podem até mesmo serem lidas segundo a lógica das 'Gambiarras' (termo também conhecido pelo artista em sua passagem pelo Brasil). Porém, o artista parece não escolher estes caminhos apenas pelas preocupações estéticas, mas sim pela constatação do potencial existente nas produções humanas ligadas a situações de urgência e escassez de recursos. A utlização destas estrategias conecta-se então a uma tentativa de ativar o espectador, através de um momento de indagação sobre a utilização de materiais na vida cotidiana. No Brasil Martin realizou, além do intercâmbio na ESDI, trabalhos com uma ONG em São Gonçalo/RJ, onde construiu em conjunto com moradores e participantes da ONG diversas estruturas e dispositivos funcionais. Desta experiência podemos apontar, por exemplo, a construção de uma arquibancada para o cine clube local, apelidado carinhosamente pela população de ‘cine alemão’.
Os trabalhos de Martin variam sempre em relação à função e ao contexto onde serão inseridos: os materiais utilizados normalmente são encontrados nas redondezas dos locais públicos e urbanos onde Wenzel pretende realizar suas intervenções. Neste sentido uma relação entre apropriar-se de algo e retornar esta apropriação, agora transformada, pode ser entendida como linha mestra dos trabalhos deste artista.
Deste modo suas produções assumem uma diversidade de potencialidades e funções: desde uma sala alternativa para fumantes em um disco club em Frankfurt – que ao ser desmontado gerou uma serie de novos elementos funcionais – um bar temporário, peças de mobiliário e ate projetos mais audaciosos. A migração de materiais, de um contexto e usos específicos, em direção a ativar uma nova vida (ao serem transformados e reutilizados) demonstra aqui uma atitude que, originada no âmbito artístico busca impactar na vida cotidiana, em suas micro escalas e esferas tanto públicas quanto privadas.
Wenzel me explicou que a noção de ‘re-informação’ é uma preocupação central de sua prática. Nesta perspectiva, o artista apropria-se de materiais existentes que são entao reutilizados na construção de algo novo, e que carrega trações e informações de sua condição anterior. Martin comprara esta noção com o termo ‘sampling’ utilizado na esfera da produção musical. Uma reflexão que surge a partir da observação e utilização de seus projetos reside no questionamento sobre quais são as formas em que dialogamos com os objetos que nos cercam.
Em tempos de crise econômica e ambiental, o trabalho de Martin parece trazer ecos de outros tempos, ligados às diversas iniciativas de contracultura, que buscavam formas de socialização alternativas. Observando seus projetos, é impossível não associá-los a arquitetos e designers dos anos 60 e 70 (como por exemplo Victor Papanek ou mesmo artistas e arquitetos ligados ao movimento de vanguarda De Stijl). Também encontramos traços da filosofia DIY (Do it yoursefl) que parece impregnar as atividades deste jovem artista, e mesmo que os tempos sejam outros, a potencialidade destas praticas ainda parecem ser de extrema importância. Martin agora prepara sua participação em um grande projeto que envolve preocupações ecológicas e ligadas às mudanças climáticas, o
Klimaroute. Neste projeto, que busca criar soluções entre arte e design tomando como ponto de partida e consideração as rotas climáticas ao longo dos rios Meno e Reno, Martin realizará em uma torre elétrica abandonada, uma espécie de estação para aves migratórias que poderá ser utilizado como um grande ninho gigante pelas mesmas.