Enquanto escrevia este post, me ocorreu uma reflexão sobre a situação do artista ao qual me referia: seria um post sobre um estrangeiro ou sobre um conterrâneo? Bem, depende do contexto de onde se olha. Em Frankfurt seria um estrangeiro, mas no Brasil, um conterrâneo. Esta é a situação na qual encontrei
Angelo Luz, um jovem artista brasileiro que também esteve em Frankfurt como
exchange student na
Staedelschule. Angelo, que vem de Curitiba (do Departamento de Artes Visuais da UFPR), ingressou na
Film Klass sob orientação do artista Douglas Gordon.
Conheci Angelo logo nos primeiros dias em Frankfurt, e a língua foi o elemento que inicialmente nos aproximou. Aos poucos, outros fatores ajudaram a estreitar nosso contato: sejam as trocas de impressões sobre a nova cidade e sua cena cultural ou idéias para o momento de retorno ao Brasil, nossas conversas foram ganhando maior amplitude e assim comecei a conhecer o seu trabalho. Realizamos a visita ao seu estudio em Durerstraße (sede da Staedelschule), numa conversa que durou toda uma tarde.
Começamos falando sobre seu percurso de formação, ligado ao grupo Dansofia de pesquisas filosóficas (dirigido por Carmen Lúcia Fornari Diez) na UFPR em Curitiba. Ângelo me contou que o curso apresentava um interessante cruzamento entre um uma prática ligada ao corpo (em suas diversas potencialidades) com um conjunto de estudos filosóficos ligados, por exemplo, à filosofia crítica e a Adorno – já uma estranha e interessante coincidência, se pesarmos na vinda de Angelo à Frankfurt, cidade onde o sociólogo e filósofo nasceu e atuou.
Neste período inicial, Angelo produziu seus primeiros trabalhos direcionados à performance, experiências que o levariam a participar da Companhia de Dança Moderna da UFPR. Entre 2004 e 2006, ele obteve uma bolsa de pesquisa e residência na Casa Hoffman (em Curitiba), atendendo a um diverso programa de workshops internacionais. De certo modo, todas estas atividades abriram portas para que Angelo ingressasse posteriormente na
PIP, uma renomada companhia de dança da cidade.
Dançando muito para esta última companhia, tanto no Brasil quanto no exterior, Angelo participou de uma residência em
Nova York, no
DanSpace Project. No período em que permaneceu na cidade, Angelo pôde visitar diversos museus e galerias, fator que o levou a mergulhar mais profundamente nas artes visuais, assim como proporcionou um distanciamento gradativo da dança.
Ao retornar ao Brasil, ele ingressa no curso de artes visuais da UFPR, e começa a desenvolver pesquisas relacionadas ao corpo, explorando o que poderia ser uma noção de brasilidade (influenciado inicialmente pelo trabalho de Hélio de Oiticica). O artista então direciona energias para a produção de uma série de trabalhos nos quais explora as relações entre o corpo e o espaço urbano em ações públicas, interesses que passam então a dialogar de forma mais concisa. Conseqüentemente, o artista passa também a interessar-se pelas áreas do vídeo e da fotografia: seja pela necessidade de registrar as ações efêmeras quanto pelo potencial comunicativo que estas apresentam.
Em 2006, Angelo realiza um interessante projeto –
Zona Franca: um convite à destruição – no qual convida outros artistas para transformarem e intervirem em um trabalho de performance, que era por natureza efêmero e situacional. Cada convidado poderia interferir no projeto através de uma série de instruções sonoras gravadas previamente, que então eram incorporadas e executadas ao vivo pelo artista - performer. Seu interesse ali era testar um processo de trabalho coletivo, mas que também tencionasse as noções de esfera pública e privada, de propriedade e diluição autoral da obra, numa espécie de ação metafórica que sugeria “uma abertura do corpo ao público, para intervenção de terceiros”, como me contou. O projeto contou com a participação de 18 artistas das áreas de dança, artes visuais e teatro, em nove sessões coreográficas.
Entre 2009 e 2010, Angelo realiza projetos explorando as relações entre o corpo e a natureza. No primeiro projeto, ocorrido na Ilha das Peças (litoral do Paraná), ele realiza uma residência com a artista Stephany Mattanó. Durante um mês na ilha, a dupla testa a relação de seus corpos com o ambiente, explorando os contextos da paisagem natural e local. Referências à
Land Art, registros de ações efêmeras e uma espécie de neo-romantismo podem ser ligadas a este retorno temporário à natureza selvagem, observações que estão presentes nas imagens, vídeos e fotografias que emergiram desta experiência. O resultado deste projeto foi exposto no MAC – Paraná, em Curitiba, integrando a exposição coletiva 'Possíveis Conexões'.
Já em 2010, influenciado pela rica experiência do projeto anterior, Ângelo parte para realizar
The Real Matter, na ilha de Superagui (também no estado do Paraná). Este projeto solo, que contou com os registros fotográficos da francesa Charlotte Bo, configurou-se como uma espécie de “retiro” no qual o artista continuaria a explorar processos meditativos e performáticos em um ambiente diverso daquele urbano onde vivia.
Ainda em 2010, Ângelo é selecionado através de um edital de bolsa de pesquisa e produção atribuído pela Fundação Cultural de Curitiba para realizar o Projeto
Junkspaces, e assim parte rumo à Frankfurt, a fim de desenvolver o projeto na Europa.
Aqui, abro um parêntese: comentei com Ângelo que eu não conhecia as iniciativas de fomento da cidade de Curitiba, e fiquei de certo modo impressionado com os diversos editais focados em estimular a produção local, com os quais tomei contato em nossa conversa. Isto demonstra que a continentalidade do território brasileiro, em muitos momentos, criar barreiras difíceis de se perceber, como por exemplo a invisibilidade destas ações e de certas cenas culturais que não participam dos “eixos culturais nacionais”... mas este, enfim, é um assunto para um outro momento.
Retornemos ao projeto
Junkspaces. Neste, Angelo propôs uma pesquisa e produção baseadas nas noções de
site specific e
site oriented [1], onde ele explora as condições de deslocamento espacial e geográfico, refletindo sobre a perda de referências no mundo atual assim como sobre a condição de itinerância do artista contemporâneo que, de certo modo, cria lugares e os transporta através de seus discursos. Neste percurso, Angelo me conta que interessa-se pela linha tênue entre arte e vida, trabalhando de formas indiretas certas referências biográficas, documentando seja os lugares por onde passa quanto o próprio ato de deslocamento, experimentado através do corpo. Os processos que utiliza para esta nova pesquisa são interessantes cruzamentos entre estratégias conceituais e uma exploração dos limites de comunicação e abstração que residem na produção de uma imagem.
Nestes trabalhos mais recentes, Angelo documenta situações urbanas através de fotografias e vídeos que podem ser encarados como fatos visuais. Estes, apresentam-se no limiar entre situações de abstração e documentação que, ao se caracterizarem de modo difuso, nos propõem uma reflexão sobre as implicações da itinerância entre lugares como uma situação intrínseca à formação da identidade do sujeito contemporâneo. E a qualidade meditativa que algumas destas imagens e trabalhos apresentam, nos levam a pensar em possíveis relações entre filosofia e observação, sobre um olhar que é atento e reflete sobre o entorno, mas que não deseja tomar conta do mesmo.
Nos trabalhos de Angelo Luz, convergem interessantes explorações sobre as diversas formas de representar e apresentar o corpo e seus movimentos, informados por reflexões sobre gênero que de um modo geral se relacionam à própria biografia do artista. O caminho da dança em direção à performance e seus derivados (a vídeo performance ou séries fotográficas que documentam ações específicas) mostram-se não só produtos complementares de sua prática, mas campos e linguagens importantes para sua trajetória. Em 2012, Ângelo irá apresentar os resultados finais de sua bolsa de pesquisa referente ao projeto
Junkspaces, no Museu da Gravura e Fotografia da cidade de Curitiba – e aguardamos ansiosos para conferir os resultados.
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[1] Para maiores informações sobre estes termos ver
Um lugar após o outro:
anotações sobre site-specificity, tradução de Jorge Menna Barreto.