Neste post escreverei a respeito de dois colaboradores: Özlem Günyol & Mustafa Kunt. Fui apresentado ao trabalho deste casal de artistas, originários da Turquia, através de conversas com amigos curadores também turcos. Já que, no momento de minha visita, os artistas se preparavam para deixar temporariamente a cidade de Frankfurt rumo a duas residências – a primeira em
Dublin e a segunda em
Nova York – o casal me recebeu em sua casa e não em seu estúdio, que encontrava-se já ocupado por outros artistas.
Devido tanto a minha limitação em relação à língua alemã quanto a de Mustafa em relação ao inglês, Özlem atuou por vezes como interlocutora e até tradutora. Tal fato gerou em nossa conversa uma interessante dinâmica de buscas por termos lingüísticos e palavras em idiomas e culturas diversas, o que de certo modo reflete alguns dos interesses presentes em seus trabalhos. Desta forma, um segundo nível de nossa conversa foi marcado pelo encontro entre identidades e territórios – áreas que, como explicarei a seguir, são caras aos artistas.
O difícil processo pelo qual os artistas passaram na vinda da Turquia para a Alemanha e o início no novo País – cheio de incertezas e inseguranças – foi o ponto inicial da visita. Na Alemanha, os artistas ingressaram na academia de arte de Frankfurt (a Staedelschule) e após alguns anos de muito trabalho, as perspectivas de produção gradativamente passaram a ser melhores. Entre 2007 e 2009 o casal esteve em uma residência na cidade (nos estúdios Basis) fato que marcou o início de um período frutífero, gerando vários novos projetos. Hoje os artistas residem permanentemente em Frankfurt e começam a destacar-se tanto na cena artística regional quanto internacional.
Os trabalhos de Özlem & Mustafá chamaram minha atenção pelas seguintes razões: em primeiro lugar por se tratar de uma prática colaborativa (dinâmica pela qual também me interesso); em segundo lugar porque identifiquei em sua produção um interessante cruzamento entre ações que remetem a problemáticas relativas à esfera pública, aos processos de documentação e abstração ligados a códigos lingüísticos e comunicacionais. Também é marcante em seus projetos a exploração da linguagem visual: através de articulações desta, seus trabalhos questionam de forma ampla a formação da identidade individual e de território nacional.
Assim, os artistas lidam com elementos ligados a diferentes sistemas sócio-políticos, ao uso de símbolos nacionais e suas conexões com questões migratórias e étnicas, apontando para relações tanto do indivíduo com a sociedade quanto à noção de linguagem coletiva em relação ao Estado. Porém, tais preocupações não manifestam-se de modo didático, ao invés, materializam-se de forma evocativa e com uma carga fortemente visual e poética.
Em um projeto realizado durante a residência em Frankfurt (
Are you one of among whom we were able to make to become European? ), os artistas propuseram uma longa palavra-frase em forma de letreiro, instalada no exterior do edifico dos estúdios Basis que localiza-se em uma parte da cidade densamente povoada por imigrantes (perto da
Hauptbahnhof - estação central de trens). Escrita empregando a língua turca, a pergunta remetia mais aos imigrantes do que a população alemã local, questionando as noções do que pode ser um sentido de pertencimento e identidade Europeu.
Como um jogo lingüístico, a grande frase-palavra podia ser lida e interpretada de diversas formas. Através da adição de prefixos e sufixos ela apresentava um complicado sistema de construção característico da língua turca, que permitia interpretações de perguntas diversas, como por exemplo “você é Europeu?” ou “você ao menos se tornou um?” dentre tantas outras leituras possíveis.
Uma outra esfera de pesquisa dos artistas aborda os diversos usos e transformações de símbolos nacionais, como por exemplo o vídeo
Untitled (borders from 1804 to 2006) no qual podemos observar a mudança contínua de cores e formas em uma intrigante malha visual abstrata, mas que na verdade representam as diversas configurações territoriais e políticas da Europa em um específico período de tempo (1804-2006).
Já no trabalho
Flags (2009), 246 bandeiras de diferentes nações foram sobrepostas através de impressões consecutivas em um mesmo tecido, até que as imagens de identificação nacionais fossem anuladas, tornando-se um elemento abstrato e irreconhecível: um denso retângulo negro.
Em uma outra obra,
Hullabaloo (2009), a exploração de elementos representativos ligados às identidades nacionais transfere-se da imagem ao campo sonoro. Os artistas criaram um dispositivo escultórico composto por alto-falantes que veiculavam 266 hinos de nações diversas, em uma composição pré-estabelecida. De todo modo, as canções acabavam sobrepondo-se, conferindo uma sensação de materialidade aos sons – que ao ganharem ‘corpo’ estabeleciam um território imaterial e até mesmo abstrato. A sobreposição e a cacofonia sonora gerada através da saturação de hinos instauravam então um colapso da legibilidade dos códigos, em uma estratégia de acumulação que, em certo sentido, assemelhava-se à estratégia utilizada no trabalho Flags.
Atualmente os artistas desenvolvem uma série de projetos e obras onde intricados processos de utilização e subversão de diversos elementos – como a materialidade, a linguagem, a ideologia e a religião – ganham forma e presença através da imagem impressa, do vídeo, ou em composições escultóricas e espaciais.
O trabalho ...
and Justice fot All! (2010) pode ser tomado como um exemplo desta fase. Nesta obra, os artistas transformaram uma faixa de protesto em corda, na qual vemos apenas indícios de certas cores, remanescentes do texto presente no elemento inicial (a faixa). O trabalho parece questionar de forma poética as relações entre ação política e representação de protesto, porém transformando os elementos comunicativos e literais da faixa em um elemento utilitário e de certo modo abstrato, que remete a outras possíveis ações: uma corda pode ser utilizada para escalar, superar barreiras, isolar uma área, como ‘cabo de guerra’ em jogos e disputa por espaços imaginários, para amarrar um indivíduo e assim por diante...
As relações entre o primeiro elemento (que por natureza e necessidade veicula uma mensagem direta e até dogmática) com o segundo (que é abstrato, maleável e utilitário) propõem interpretações interessantes para uma reflexão sobre as noções de uso e significado no campo da arte e em relação ao campo de ação e representação política.
Günyol & Kunt empregam estratégias conceituais na concepção e finalização de seus trabalhos, conferindo aos mesmos um comportamento que oscila entre as esferas simbólicas e comunicacionais, mas cujos referenciais externos não podemos mais discernir precisamente. Utilizando traduções entre materiais e processos lingüísticos, os artistas exploram complexos sistemas de abstração e suas relações com uma noção de legibilidade da matéria... E é neste campo de fusões e migrações que os projetos destes artistas transitam e se materializam.