Alex Cerveny tem uma vista ampla - de um andar além do vigésimo – do centro de São Paulo. E é mesmo do alto que chegamos mais próximo do olhar divino. Nascido na Pauliceia desvairada, ex-contorcionista e viajante diletante, o artista tem muita estória para contar. Com uma bagagem imaginativa de muitos séculos, daqueles em que viveram os clássicos arcaicos, bárbaros românticos, objetivantes medievais e os reativos maníaco-depressivos, nos quais fábulas eram metáforas de gente e a gente era novo demais para saber, não é difícil envolver-se nas narrativas extraordinárias dos seus desenhos e telas. Tarefa espinhosa é eleger dentre eles o que melhor representa a obra do artista, já que os temas parecem ter um quê de unidade e, contudo, espalham filosofias distintas.
Mas isso não importa. Importante é sentar e escutar o que Alex tem a dizer sobre a relação do corpo e da mente, ficar em dúvida sobre a metafísica das coisas, que ele mesmo nem afirma acreditar, mas também não nega. E para desvendar essa dicotomia orgânica misteriosa, o artista emprega o desenho, técnica que, segundo ele, possibilita acompanhar com velocidade e fluidez a captação dessa relação física-intelectual. Muito embora a pequena escala seja uma constante na sua produção - sobretudo nas pinturas-, a silhueta retratada parece ter sido desenhada no tamanho do artista, e os vazios que o contorno não preenche assemelham-se à uma transparência, digamos, da alma. Como se fosse possível ver por dentro o que o corpo esconde de quem vê de fora.

Entre homens que são meio martelo ou têm pernas elásticas [alusão aos tempos de picadeiro de Alex], existe um cenário comum e reincidente, uma natureza representacional dos quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Às vezes, este último é protagonista, aparecendo como uma chama sólida de vermelho ou em formato de fumaça-nuvem. Não raro há referências míticas ou religiosas, de Sísifos existencialistas a liturgias purificadoras; os contos infantis também estão presentes, especialmente aqueles cuja moral da história resvala na violência, como em Der Struwwelpeter [1845] e Pinóquio [1883].

Em La Adoración del Cubo Blanco [2007], a pintura, como o próprio título antecipa, parece descrever o culto ao símbolo da fruição ascética contemporânea. Mas alto lá! Abaixo aos conceitualismos, à promessa moderna, ao abstrato e neutro, à arte autorreferente. Assumidamente, o artista não vê graça nessa vertente, ao invés de cubo branco, ele preferiria construir pirâmides enigmáticas ou muros babilônicos. Mas talvez seja na atmosfera de pinceladas Metafísicas – nada mais “de chiriano” que um objeto emanando luz -, que esteja a congruência intelectual do que ele busca, no sentido de que a arte não precisa de vínculos práticos e prescinde da História [a oficial], pois se reinventa enquanto narrativa, à moda de qualquer época; Alex gosta dela assim, meio “esquizo” - frenética, ela ilustrativa [por que não?], dando pitacos ou duras opiniões figurativas sobre a vida no mundo.

No mapeamento do universo cerveniano, não se poderia deixar de lado o texto, tanto como referência quanto parte integrante nas obras. Em muitos trabalhos a presença da mensagem textual faz-se elemento novo e interdependente da imagem. Às vezes a citação é inédita. Às vezes foi apropriada da literatura, poesia, tevê, canções ou revistas. Logo no início da nossa conversa, ele rememorou o Hino à Bandeira, de Olavo Bilac:
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amados,
poderoso e feliz há de ser!
O ensejo de uma próxima leva de trabalhos vem dessa temática exacerbadamente [pelo bem e pelo mal] nacionalista. Embora Alex dedique tanta energia mundo afora – bandeiras cervenianas estão fincadas de Jerusalém a Nazca -, não se esquece do que existe em território nacional. A tríade “Miranda-Matogrosso-e-Maravilha1”, fora de ordem hierárquica, representa o especial apreço de Cerveny por uma cultura brasileira, por assim dizer, posterior a supostos canibalismos e vertentes primitivas. Guaraci, Jaci: “Tupi or not tupi that is the question”2. Mas a crise de identidade brasileira não é uma novidade. O Modernismo foi a adolescência tupiniquim, que depois de deixar o berço esplêndido, quis retornar aos seus totens e depor certos tabus, buscar nas origens uterinas a liberdade primitiva. Figuras indígenas figuram com mandacarus num céu diurno de azul profundo. Como serão as próximas explorações dos tipos pertencente ao mundo des[colonizado] de “mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes”3?

Cerveny é assim, transforma uma nota marginal em história principal, meio inventada, meio real. Verificar a procedência pouco importa, pois no final, os personagens existem de verdade e a base para o nascimento de cada um deles é sempre legítima.
Mas isso não importa. Importante é sentar e escutar o que Alex tem a dizer sobre a relação do corpo e da mente, ficar em dúvida sobre a metafísica das coisas, que ele mesmo nem afirma acreditar, mas também não nega. E para desvendar essa dicotomia orgânica misteriosa, o artista emprega o desenho, técnica que, segundo ele, possibilita acompanhar com velocidade e fluidez a captação dessa relação física-intelectual. Muito embora a pequena escala seja uma constante na sua produção - sobretudo nas pinturas-, a silhueta retratada parece ter sido desenhada no tamanho do artista, e os vazios que o contorno não preenche assemelham-se à uma transparência, digamos, da alma. Como se fosse possível ver por dentro o que o corpo esconde de quem vê de fora.

Artista em seu ateliê
Entre homens que são meio martelo ou têm pernas elásticas [alusão aos tempos de picadeiro de Alex], existe um cenário comum e reincidente, uma natureza representacional dos quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Às vezes, este último é protagonista, aparecendo como uma chama sólida de vermelho ou em formato de fumaça-nuvem. Não raro há referências míticas ou religiosas, de Sísifos existencialistas a liturgias purificadoras; os contos infantis também estão presentes, especialmente aqueles cuja moral da história resvala na violência, como em Der Struwwelpeter [1845] e Pinóquio [1883].

La Adoración del Cubo Blanco, 2007 | óleo sobre linho | 24 x 30 cm
Em La Adoración del Cubo Blanco [2007], a pintura, como o próprio título antecipa, parece descrever o culto ao símbolo da fruição ascética contemporânea. Mas alto lá! Abaixo aos conceitualismos, à promessa moderna, ao abstrato e neutro, à arte autorreferente. Assumidamente, o artista não vê graça nessa vertente, ao invés de cubo branco, ele preferiria construir pirâmides enigmáticas ou muros babilônicos. Mas talvez seja na atmosfera de pinceladas Metafísicas – nada mais “de chiriano” que um objeto emanando luz -, que esteja a congruência intelectual do que ele busca, no sentido de que a arte não precisa de vínculos práticos e prescinde da História [a oficial], pois se reinventa enquanto narrativa, à moda de qualquer época; Alex gosta dela assim, meio “esquizo” - frenética, ela ilustrativa [por que não?], dando pitacos ou duras opiniões figurativas sobre a vida no mundo.

La Destrucción Del Cubo Blanco, 2008 | óleo sobre algodão | 11 x 16 cm
No mapeamento do universo cerveniano, não se poderia deixar de lado o texto, tanto como referência quanto parte integrante nas obras. Em muitos trabalhos a presença da mensagem textual faz-se elemento novo e interdependente da imagem. Às vezes a citação é inédita. Às vezes foi apropriada da literatura, poesia, tevê, canções ou revistas. Logo no início da nossa conversa, ele rememorou o Hino à Bandeira, de Olavo Bilac:
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amados,
poderoso e feliz há de ser!
O ensejo de uma próxima leva de trabalhos vem dessa temática exacerbadamente [pelo bem e pelo mal] nacionalista. Embora Alex dedique tanta energia mundo afora – bandeiras cervenianas estão fincadas de Jerusalém a Nazca -, não se esquece do que existe em território nacional. A tríade “Miranda-Matogrosso-e-Maravilha1”, fora de ordem hierárquica, representa o especial apreço de Cerveny por uma cultura brasileira, por assim dizer, posterior a supostos canibalismos e vertentes primitivas. Guaraci, Jaci: “Tupi or not tupi that is the question”2. Mas a crise de identidade brasileira não é uma novidade. O Modernismo foi a adolescência tupiniquim, que depois de deixar o berço esplêndido, quis retornar aos seus totens e depor certos tabus, buscar nas origens uterinas a liberdade primitiva. Figuras indígenas figuram com mandacarus num céu diurno de azul profundo. Como serão as próximas explorações dos tipos pertencente ao mundo des[colonizado] de “mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes”3?

Cerveny é assim, transforma uma nota marginal em história principal, meio inventada, meio real. Verificar a procedência pouco importa, pois no final, os personagens existem de verdade e a base para o nascimento de cada um deles é sempre legítima.
1. O artista refere-se às figuras de Carmen Miranda, Ney Matogrosso e Elke Maravilha.
2. ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago, 1928.
3. Trecho da canção “Inclassificáveis”, de Arnaldo Antunes.
Paula Nishijima
Biography
Júlia Frate Bolliger
Vinicius Spricigo
Beto Shwafaty
Stefanie Hessler






























Crazy about these curious objects, Nino usually wanders around small stores and buy all sorts of things, such as a weird comb made of nails to clean fishes (on the left) or a miniature carrossel made of sliced cans. "I like when I find an object that I can’t instantly recognize - I like to bring those objects home and let them be part of my world - with time they get intimate with my home and might end up being part of an artwork”, says Nino. 
His first art piece (picture on the left), created when he was still at University, came from a sliced shirt where he made several knots. These knots were another striking point in Nino’s poetics: “It was then when I started my search for the silence. I noticed that things are always trying to settle down, to find their place of comfort, like sand on a water-glass, it moves until it finds this confort place. In nature, friction exists in this search for what I call silence place, that I started to link with sculpture. In the traditional sculpture the author acts over the material until it’s done, frozen, in silence. And I started to see the knot also as a sculptural act - the more I pull the knot, the more I tension it, more it finds this silence place. It’s a kind of tension that leads to the silence.”

























