[texto escrito por Mario Barbosa, pai de João Montanaro]
Quantas coisas nos chateiam: fofocas, intrigas, invejas, falta de grana, doença, desemprego, falsidade, desamor, corrupção, sermos ignorados, contas pra pagar, etc. A sua lista deve ter mais coisas, certamente. Da mesma maneira, quantas coisas nos alegram: emprego, amizade, companheirismo, amor, filhos, sucesso, respeito, uma viagem, um animalzinho, uma comida, um vinho, um bom papo, um lindo dia de sol ou de inverno, uma linda paisagem, alguém em quem se confia, etc. Aposto que sua lista também seja maior nesse quesito.
Agora imagine um lugar onde você tem a sensação de que nada disso que falei acima tem sentido, seja bom ou seja ruim. Imagine um lugar onde um pedaço de terra simplesmente virou o inferno na Terra, onde só há dor e ranger de dentes.
Eu e o JP estivemos ontem em DACHAU (pronuncia-se DARAU), o primeiro campo de concentração nazista.
KZ Gedenkstätte Dachau é o nome em alemão e o lugar é monumental.
Chegando, chama a atenção as guaritas das sentinelas e o muro alto com arame farpado na parte de cima e também o enorme portão de ferro que permite total visão, tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro.
Aberto para visitaçã,o vê-se na organização das informações o cuidado e o respeito com o que aconteceu naquele lugar como algo para não se esquecer, para que não se repita.
O prédio maior, chamado de “Prédio da Manutenção” abriga um museu bastante diferente, pois, ao invés de vários objetos, painéis fotográficos contam a história detalhada do que aconteceu ali.
No inicio você não se dá conta da gravidade ou mesmo imagina ser tudo algo bem distante, mas, conforme vai andando pelas salas, lendo os painéis e vendo as imagens você vai se convencendo de que foi bem real. Dolorosamente real.
Um campo de concentração é basicamente uma prisão e tudo é feito para impedir fugas ou mesmo levantes. Detalhes como o chão e barrancos recobertos com pedras roliças para impedir o deslocamento rápido, a falta de árvores (na época), os fossos, arames farpados, muros, guaritas, enfim... uma prisão, mas o que choca é o tipo de ser humano confinado ali: pessoas que por conta de uma ideologia equivocada (o nazismo) foram condenadas não por crimes, mas simplesmente por existirem de maneira diferente ou pensarem de maneira diferente.
Os relatos naqueles painéis nos dão conta de que as pessoas viviam ali em constante estado de “quase morte”, ou seja, a intenção era a de prolongar a sensação de morte, tamanho clima de medo e tensão constantes.
Andando por aquela imensidão em um dia agradável de verão, fico imaginando quantos lindos dias ou noites enluaradas e estreladas aquelas pessoas viveram mas não puderam contemplar ou aproveitar. Penso em como aquelas pessoas que foram tiradas violentamente de seus amores, amigos, parentes, filhos, pais, esposas e bens teriam ainda motivos para se alegrarem ou mesmo se chatearem com as mesmas coisas comezinhas que nos chateiam ou nos alegram. Penso no que é a pessoa não ter sequer identidade própria, pois cada pessoa era um número marcado na pele e que correspondia ao seu único patrimônio: sua roupa. Roupa que era guardada em um armariozinho de uns 30 cm x 100 cm. Penso no que seja ficar empilhado em camas triliches sem colchão, dentro de galpões feitos de madeira e placas de amianto ou mesmo em pequenas celas de 1,5 m x 1,5 m tendo como companheiro somente um vaso sanitário e uma pequena janela. Penso no que seriam duzentas mil pessoas aglomeradas num mesmo lugar. Penso nos diversos castigos aplicados, sendo que um dos piores era ficar em pé, no pátio, sem poder mexer um músculo por horas ou mesmo dias. Penso no número de onze mil cremados somente em um forno antigo. Penso na alegria da liberdade retardada por conta da febre tifoide que acometia os que estavam lá, pois as tropas aliadas temiam uma propagação desta praga por toda a Europa. Penso nos sobreviventes retornando do inferno para a vida e com a certeza de que o passado já fora, de que o futuro era total e absolutamente “implanejável” e de que o presente era apenas o momento em que o futuro torna-se passado.
Durante anos ouvi meu pai contar histórias do que ele viveu na II Guerra como soldado Polonês e sempre tive ganas de conhecer de perto um pouco da história que ouvia dele. Pai...te admiro muito mais agora!
Finalmente conheci, e tenham certeza de que minha vida mudou, pois agora não quero dar mais valor às mesquinharias da vida. Mudou porque penso que devo me dedicar mais às pessoas... que eu amo e as que não amo.
Agradeço a Deus por cada momento, cada experiência, cada sentimento novo, cada mudança, cada pessoa em minha vida, cada dificuldade, cada contratempo, cada decepção, cada alegria, cada filho, cada amor, cada amigo e muitas outras tantas coisas que pude e posso vivenciar...
...sou um homem feliz. Obrigado meu Senhor!
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Ao escrever sobre Dachau anteriormente privilegiei meus sentimentos e sensações ao invés de o passeio em si, o que pretendo fazê-lo agora.
Dachau fica fora da zona urbana de Munique. Para lá se pode ir de trem de maneira muito confortável e rápida em apenas 30 minutos. Lugarejo agradável, com casas típicas da região, com ruas largas e muito arborizadas.
Descemos na estação central e cometemos o nosso grande erro: ao vermos um mapa da cidade, decidimos não pegar o ônibus 726 (que vai direto para o Campo de Concentração) e fomos a pé. Seriam somente dois quilometrozinhos caminhando. Para quem não conhece o local e não tem o costume de andar, acabamos andando três quilômetros (pegamos o caminho mais comprido) e chegamos ao Campo cansados, com fome e com as pernas num bagaço só.
Antes da entrada do Campo há um prédio da administração do local com restaurante, biblioteca, balcão de informações e uma loja de souvenires. Ao atravessar o portão do Campo em si, nos deparamos com um local imenso, sensação reforçada pelo amplo pátio, cujo solo é coberto de pedras roliças, o que dificulta e cansa um pouco andar por ele.
Tudo é muito bem organizado para que você possa entender a história do local, e ao entrar no prédio chamado de “Prédio da Manutenção”, transformado em museu, podemos perceber isso.
Painéis enormes, com fotos e textos, vão contando a história, apresentando momentos, descrevendo detalhes, gráficos estatísticos, documentos e mesmo alguns utensílios utilizados pelos prisioneiros. Tudo isso do começo, quando o Campo foi aberto, até o final, depois da chegada das tropas aliadas e da libertação dos prisioneiros. Muitas fotos e muitos detalhes para serem vistos e que às vezes chocam pela crueza e naturalidade com que foram documentadas.
Curioso é estar em um local e ver fotos do mesmo na época... você se transporta para lá e imagina as pessoas das fotos como fantasmas que aparecem na imagem que você está vendo hoje.
Saindo deste prédio, você é levado (seguindo setas) para o bunker onde ficavam os presos em uma espécie de solitária com dezenas de celas com 1,5 m x 1,5 m (imagine alguém como eu com 1,80 m dormir num local como este) e apenas um sanitário e uma pequena janela. Em algumas celas, estão projetadas na parede informações sobre um preso ilustre que ali esteve.
O local deixa a gente sufocado e a saída dele dá para um pátio pequeno, próximo à entrada do campo e também à cerca.
A cerca é um capítulo à parte. Com um fosso de uns 2 metro de altura e uns 3 metros de largura, uma malha de arame farpado de uns 3 metros antes de chegar à cerca também de arame farpado e eletrificada com uns 3 mts de altura. Depois disso tudo, ainda tinha um espaço de uns 5 metros totalmente vazio e depois dele um muro. Qualquer pessoa que tentasse atravessar esta parafernália toda seria facilmente vista em qualquer etapa do caminho através das guaritas dispostas ao longo da cerca. Muitas pessoas suicidavam-se deliberadamente nesta tentativa.
Após o enorme pátio, podemos ver dois galpões feitos de madeira e paredes de amianto onde ficavam os alojamentos dos prisioneiros. Camas triliches, sem colchões ou travesseiros, empilhavam as pessoas que possuíam apenas um pequeno armário para colocar toda sua vida. Eram trinta e dois galpões iguais e hoje se podem ver apenas as fundações dos demais e uma linda e enorme árvore plantada na frente de onde ficava cada um.
Era próximo das 15 horas e começamos a ouvir um enorme sino tocando de maneira ensurdecedora emprestando um clima solene ao lugar. Caminhando por um enorme corredor formado por estas árvores gigantescas (muito comuns por aqui), chegamos a vários templos e memoriais: um construído pela igreja católica, uma sinagoga e um templo protestante.
Saindo do Campo, após atravessar uma pequena ponte sobre um riozinho extremamente limpo, chegamos ao local onde estão o crematório e a câmara de gás. Fotos da época mostram pilhas de corpos empilhados aguardando serem cremados. Saímos de lá e (desta vez de ônibus) voltamos para Dachau Ost para retornarmos a Pasing e eu, particularmente, deixei por lá um monte de dúvidas e trouxe comigo um monte de certezas para esta breve existência que me resta.
Que o Senhor seja misericordioso com pessoas como nós e nos livre de momentos como estes vividos por milhares de pessoas num passado não tão distante assim.